O homem que faz arte na areia

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O sol já havia ido embora e o vento gelado começava a ganhar espaço em Copacabana. O famoso calçadão de pedras pretas e brancas que se harmonizavam entre si em um mosaico ainda estava lotado de turistas caminhando com suas câmeras fotográficas atrás dos melhores cliques do Pão de Açúcar ao horizonte da paisagem. Eu também estava com a minha câmera fotográfica em mãos. Mas, diferentemente, junto da minha câmera se encontrava um gravador pronto para ouvir uma história.

“Eu sou o Ubiratan dos Santos e fiz o Papa Francisco na areia de Copacabana. Foi sucesso no mundo todo”, respondeu o senhor de quase 60 anos, quando pedi para que ele se apresentasse. Com um olhar profundo, o escultor de areia, mesmo com uma visível aparência exaustiva pelas longas horas de trabalho naquele dia, manteve o astral radiante e um sorriso no rosto durante todo o tempo em que conversamos. A sua rotina inicia cedo, quando enfrenta mais de duas horas de ônibus do Bairro Olaria até a Praia de Copacabana, onde dá início à arte feita de areia.

Ubiratan da Conceição dos Santos, antes de descobrir o talento à beira-mar, trabalhava em uma empresa de fabricação de papeis de parede. “O movimento ficou fraco, e como eu tenho quatro filhos, ficava difícil conseguir manter a minha família. Aí eu vim para Copacabana e avistei um boneco de areia. Encantei-me e pensei ‘Poxa, eu posso fazer isso!’”. O homem que, há quase vinte anos, trabalha com esculturas de areia, diz que em um primeiro momento, pediu ajuda a um amigo que já carregava uma boa bagagem de experiências pelas praias cariocas. Com muita insistência, Ubiratan convenceu seu mentor de que ele não era tão velho para aprender o ofício. “Eu aprendi. E quando ele se ligou, eu passei na frente dele, já tava mais esperto que ele”, recorda com orgulho.

Porém, o brilho no olhar específico de quem sabe que já realizou inúmeros trabalhos reconhecidos nas areias do Rio surge quando ele fala das obras. Ubiratan foi o artista de esculturas famosas, como a do Michael Jackson e a de um Mini Cooper. Esse último ganhou credibilidade e mais espaço, sendo esculpido também em Ipanema e Leblon. Além disso, diversos artistas, como Raul Seixas, Ana Hickmann e Chris Flores, ganharam vida na praia mais conhecida entre os turistas que visitam o Rio de Janeiro.

Lembro-me de ter encontrado Ubiratan sentado em uma cadeira de praia, com uma vasilha de acrílico em mãos, onde eram colocadas moedas e notas de pequeno valor, oriundas de carteiras de admiradores e generosos que por ali passavam. Ao seu lado, quatro mulheres de areia deitadas de bruços chamavam a atenção, principalmente dos homens. Porém, deixei para questioná-lo sobre a escultura ao fim da entrevista. “Quando as mulheres chegam aqui com o marido, e eles querem tirar fotos ao lado da escultura, elas falam que isso é coisa feia. E eles respondem dizendo que é de areia, que não é mulher de verdade…” Ele ri da situação que frequentemente diverte os turistas. Mas, segundo ele, além das brincadeiras, há um reconhecimento positivo por parte das pessoas. “Eu sempre procurei fazer o melhor que posso”.

Agradeci. E confesso, esperei apenas um “não por isso”. Mas nós, humanos, muitas vezes nos enganamos.

— Mariana, que Deus te abençoe, te dê muita luz, te dê muita garra, muita força no coração. Só sucesso para você. Que a sua estrela brilhe muito. Aliás, ela já brilhou!

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4 comentários sobre “O homem que faz arte na areia

  1. Pingback: Contar histórias | Mariana Fritsch

  2. If someone was totally unfamiliar with Saint Laurent’s elegant work, this show provides an exceptional classroom of what put the “Saint” in Laurent. I am fortunate to have covered Saint Laurent’s funeral as well as the two globally reported sales of his and Pierre Bergé’s splendid art and decorative arts collection. I also oohed and ahed over the Saint Laurent exhibition at San Francisco’s de Young Museum in December of 2008, and his work never loses one iota of its vision or sparkle. It is breathtakingly fresh to see and experience, especially in this context.

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  3. Pingback: A minha boa ação jornalística | Mariana Fritsch

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