Escrever, contar e envolver

Jornalismo literário ou novo jornalismo, não importa qual a melhor classificação para conceituar a harmonia perfeita entre o jornalismo e a literatura. O que importa, de fato, é a forma como grandes e pequenos jornalistas iniciaram a busca por algo que fosse mais notável que o famoso hard news, que fosse capaz de envolver o leitor nas mais belas, comoventes e divertidas reportagens sobre, principalmente, histórias de vida. Histórias de vida de gente. De gente comum. Ainda hoje, há quem considere equivocada a maneira de fazer com que palavras ganhem leveza em um texto que, suposta e primeiramente, seria nada além de uma reportagem com todas as repostas dadas no primeiro parágrafo. O que? Quem? Quando? Onde? Como? E é claro, por quê? O lide passou a ter outra estrutura, e o jornalismo, outra essência.

John Hersey, Joseph Mitchell, Gay Talese e Truman Capote são conhecidos como romancistas no universo jornalístico e reconhecidos como artistas que faziam de seus textos suas obras de arte. E já que o assunto é a arte na reportagem, seria uma violação deixar fora desse renomado grupo uma das mais incríveis contadoras de histórias que o jornalismo brasileiro já teve a honra de conhecer. Ela é Eliane Brum. O que há em comum entre esses cinco nomes com extrema importância dentro do cenário do jornalismo literário está escondido em seus personagens. Talvez escondido não seja o adjetivo correto. Eu diria que o segredo está implícito no caminho percorrido desde a primeira apuração até o momento de colocar o ponto final na matéria. Ouvir, observar e contar no formato mais atraente possível.

Eliane Brum é genial em se tratando de histórias. Ela tem o dom de entender os seus personagens por meio do olhar. E acredita que ainda mais importante do que narrar uma história é contá-la. Contar com palavras afáveis, genialmente capazes de levar o leitor até o encontro com o entrevistado. A mulher corajosa com um quê de independência admite que é durante uma detalhada observação do mundo que as melhores pautas surgem.

Usufruindo de práticas similares as de Eliane, Gay Talese e Joseph Mitchell foram dois responsáveis pelo progresso desse tipo de jornalismo. Saídas às ruas à procura de relatos de vida de pessoas comuns, gente como a gente, levaram esses profissionais até o caminho mais extraordinário da carreira jornalística: o de transformar a realidade anônima em romances “de verdade”, todos eles dotados de paciência, dedicação e boa escrita. Acredita-se que, além do fato de serem bons ouvintes, o talento de cada um dos escritores teve como base a curiosidade e o querer abraçar o mundo.

Se coubesse aos leitores a escolha de apenas uma palavra para dedicar ao grandioso Gay Talese, há enorme possibilidade de essa palavra ser criatividade. O trabalho de Joseph Mitchell seria muito bem definido como preciso (e quebrando a regra de somente uma palavra, ainda o descreveriam como sendo leve).

Pobre é a pessoa que não conhece uma obra de Truman Capote e John Hersey. Quanta riqueza intelectual e cultural esse ser humano está deixando de adquirir! Truman Capote é o autor de “A Sangue Frio”, um verdadeiro clássico da literatura de não-ficção. Truman Capote levou um caso de polícia até o seu ponto mais extraordinário, e John Hersey, após publicar “Hiroshima” nas páginas da revista The New Yorker, provou que é possível transformar o jornalismo tradicional em algo inteiramente fiel à realidade, apenas envolvendo o leitor ao fato com extrema profundidade.

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