O campo de concentração de Barbacena, por Daniela Arbex

Há livros que emocionam, cativam e encantam. Outros surpreendem. Alguns prendem a nossa atenção pelo enredo, tempo e personagens. Há ainda os que nos mostram a verdade como nunca vista antes. Daniela Arbex conseguiu colocar nas páginas de “Holocausto Brasileiro” todo o fascínio que um livro de reportagem fundamentado em uma intolerância social é capaz de apresentar aos leitores. Com olhar cauteloso, o senso investigativo da jornalista a levou aos lugares onde as 60 mil pessoas mortas no maior hospício do Brasil continuam vivas na memória de quem ajudou a contar esse capítulo gritante da história da psiquiatria brasileira.

Repórter especial do jornal Tribuna de Minas, Daniela Arbex faz parte do time de jornalistas mais premiados do Brasil. Entre os mais de vinte prêmios nacionais e internacionais acumulados no currículo está o Prêmio Eloísio Furtado, o qual recebeu cinco vezes, além do Prêmio Esso de Jornalismo, conquistado em 2000, 2002 e 2012. Este último foi pela série composta por sete reportagens, que recebeu o nome “Holocausto Brasileiro” e que, mais tarde, deu origem ao livro onde toda a história obscura por trás dos paredões do Hospital Colônia seria contada.

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A cidade de Barbacena, em Minas Gerais, foi cenário para o que foi chamado de “campo de concentração nazista” pelo psiquiatra Franco Basaglia. Em condições completamente desumanas, os pacientes eram internados por serem homossexuais, prostitutas, alcoólatras, por não possuírem família ou por terem perdido seus documentos, por serem amantes, por serem tímidos. Os loucos eram poucos. Nenhuma outra descrição relata tão precisamente e surpreendentemente o dia a dia no Colônia, como a que fez Eliane Brum para o prefácio que leva o título “Os loucos somos nós”.

“Pelo menos 60 mil pessoas morreram entre os muros do Colônia. Tinham sido, a maioria, enfiadas nos vagões de um trem, internados à força. Quando elas chegaram ao Colônia, suas cabeças foram raspadas e as roupas, arrancadas. Perderam o nome, foram rebatizadas pelos funcionários, começaram e terminaram ali. Homens, mulheres e crianças, às vezes, comiam ratos, bebiam esgoto ou urina, dormiam sobre capim, eram espancados e violados. […] Os pacientes do Colônia morriam de frio, de fome, de doença. Morriam também de choque. Em alguns dias, os eletrochoques eram tão fortes, que a sobrecarga derrubava a rede do município. Nos períodos de maior lotação, dezesseis pessoas morriam a cada dia”.

“O repórter luta contra o esquecimento. Transforma em palavra o que era silêncio. Faz memória. Neste livro, Daniela Arbex devolve nome, história e identidade àqueles que, até então, eram registrados como ‘Ignorados de tal'”. Daniela cumpre perfeitamente a missão de dar voz a quem nunca conseguiu gritar.

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Durante a famosa Conferência Mundial de Jornalismo Investigativo, realizada no Rio de Janeiro, em outubro do ano passado, tive a honra de conhecer Daniela Arbex. Me encantei pela jornalista, que manteve um sorriso no rosto durante toda a incansável sessão de autógrafos.

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