Em memória, com amor

Para meu avô, protagonista desse texto, que hoje completa 85 anos, para toda Família Fritsch e, sobretudo, para minha falecida avó, Thereza.

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– Vô, qual foi o dia mais feliz da tua vida?

– Pode ser um ano?

– Claro!

– O ano em que eu estava servindo no quartel. Foi o ano mais bonito da minha vida.

Nenhum outro momento lembrado pelo meu avô durante uma hora de conversa, leva tanto brilho ao seu olhar quanto o que ele passou no Quartel Militar. A cidade de Cruz Alta foi cenário para um bom salário, novos amigos, independência e amadurecimento. Foi ainda, a cidade onde a mulher que seria a sua companheira pelo resto de sua vida, fez e contou um pedaço de sua história. No final de Outubro, decidi ir atrás de algo que me remetesse a uma parte dessa biografia.

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Entrei na velha casa de madeira, sem bater na porta, pois sei que o meu avô, Arno Fritsch, não se importaria. Ele nunca se importou. O primeiro passo que dei fez um pequeno estalo no assoalho de madeira, quando pude ouvir a antiga estante da sala, repleta de quadros de netos, dos filhos e da falecida esposa, seguir o ritmo do estalar. Atravessei da sala até a cozinha, e lá estava o Seu Arno, sentado no lugar onde ele sempre se encontra: em uma cadeira entre a janela da cozinha e o fogão à lenha. A temperatura se encontrava em torno dos 25 graus, e mesmo sem gravetos, lenhas e calor, o fogão estava com a sua tampa levantada, e cascas de laranja se enrolavam em suas bordas, prontas para um chá.

Eu completaria nove anos de idade, nove dias após o falecimento de minha avó. Essa lembrança nunca mais deixou de existir na minha memória, por mais que eu quisesse. Era uma noite fria de Julho. As expressões no rosto de meu pai foram as mesmas que seriam criadas no rosto de qualquer filho que perdesse sua mãe. Ao receber a notícia, ele deixou para que minha mãe a repassasse para mim e para minha irmã, na época, com cinco anos. Levantei do sofá, espiei pela janela e avistei minha tia atravessando a rua aos prantos. Era criança e não entendia o que estava acontecendo. Mas sabia que minha avó estava pronta para seguir outro rumo. Um caminho no qual não estaríamos mais presente. Ela seguiria sozinha.

Há quem diga que o ser humano sempre sente algo diferente, perturbador, ao abraçar uma pessoa querida pela última vez, mesmo sem saber. Tenho recordações da seguinte cena: minha avó, Thereza, sentada em uma cadeira, com aparência cansada. Ela conseguia ainda, acolher em seu colo, eu e minha irmã. Nada de muito surpreendente em uma cena comum entre avó e netas. Então minha avó, como nunca fez antes, perguntou o que eu queria ser quando me tornasse adulta. Disse que seria professora. O mesmo perguntou para minha irmã, que não sabia o que responder. Logo, ela deu início a um chá de conselhos, dicas e palavras bonitas. Também levou minutos e mais minutos, contando sobre como foi a sua infância e nos incentivou a batalhar, acreditar e ter fé. Disse que seriamos ótimas em qualquer que fosse a nossa escolha. Eu apenas estranhei tudo aquilo. Ela, tenho certeza, sentiu que deveria falar todas aquelas palavras, naquele dia, naquele minuto.

Dias depois, minha avó faleceu.

“Eu me lembro. Eu me lembro bem como conheci a tua avó”. Thereza trabalhava em Cruz Alta, em uma casa de uma família de classe média alta, “os ricos”, como se referiu meu avô. Certo dia foi para Ibirubá, cidade vizinha, para visitar a irmã, e lá aconteceu o primeiro encontro entre os dois. Em pouco tempo, já frequentavam bailes e saiam juntos. Tudo muito dissemelhante dos programas de casais nos tempos mais modernos.

“A irmã da tua avó não gostava muito de mim, e mandou ela de volta pra Cruz Alta. E eu fui atrás, mas ela não estava mais lá. Falaram que ela estava trabalhando em Três Passos, em um dos dois hospitais. Mandei-me pra Três Passos. Cheguei no primeiro hospital, perguntei pra um monte de gente, e não encontrei ela. Cheguei no segundo, e lá estava ela”. A cena descrita e interpretada pelo meu avô, para contar a reação de minha avó ao avistar ele, pode ser resumida em surpresa, esperança e adoração. Enquanto o Seu Arno ria ao se emocionar durante o relato da lembrança, eu o ouvia. Eu o ouvia com atenção. Ele foi atrás da mulher que amava. Não deu importância para a distância, oposições ao relacionamento e o que pudesse ser transformado em pedra no caminho. Ele foi atrás dela, perto. E iria de qualquer jeito, mesmo longe.

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Perguntei sobre os momentos que ele e minha avó passaram juntos. Qual foi o mais bonito. Qual é o que ele mais gosta de relembrar. Qual a melhor lembrança que ele tem da Thereza, como esposa. A resposta para essa última foi diferente do que eu esperava: A gente frequentava festas e bailes. Ela não perdia um baile, não parava em casa. Ela era rainha de Ibirubá. Ela era metida. Ela não tinha “aula”, mas quando agarrava um microfone, falava igual a um locutor. E ela sabia falar o português. Falava e escrevia. Tu, a Fe, o Marquinho e a Teka, são inteligentes igual à vó.

Orgulhoso e ansioso para relatar mais histórias, meu avô vai além das respostas que eu pedi a ele, e responde através de perguntas que ele próprio formulou. Ele me contou que minha avó acreditava em feitiços, foi contra o casamento do filho mais velho, pois pensava que a sua futura nora fosse filha de uma feiticeira. Contou também, que durante longo tempo, ela sofreu com depressão. “Ela era muito enjoada”. Ele ri.

“Mas era também uma mulher muito carinhosa”.

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– Como o senhor lidou com a morte da vó?

– Eu fiquei feliz por ela, porque foi uma morte como a que ela quis. “Eu quero pegar no sono”, ela pediu. Ela não sofreu, foi uma morte feliz.

Após uma vida inteira vivendo na tranquilidade do campo, “longe da cidade”, como o próprio Arno Fritsch se refere, é hora de conviver com uma rotina nova, dessa vez, longe do interior. Há alguns meses, meu avô mudou-se para a cidade e para uma casa ao lado da do filho mais novo, o meu pai. Por segurança. Ele aceitou deixar de lado o som produzido pela água do riacho, o pomar, os bichos dos quais cuidava e o alimento que produzia. Também aceitou deixar no passado o banquinho de madeira no qual passava tardes sentado. O seu passa tempo era observar o movimento na estrada de terra. Um carro por hora. Ele era feliz na companhia do silêncio. “Agora eu vou pra bodega, tomo uma cerveja, acho amizades… passo a tarde. Vou às duas, duas e pouco da tarde. Às vezes eu vou às três, porque as tardes são muito compridas, né? Nas quartas eu vou nos bailes…”.

– Não pensou em conhecer uma namorada em um baile?

– Eu ainda não tentei. Mas se eu quiser, em dois dias eu arrumo uma…

Rimos juntos.

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Um comentário sobre “Em memória, com amor

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