Nico morreu e levou junto o sonho da dona Ignez

Já dizia aquele velho ditado: nunca deixe para amanhã o que você pode fazer hoje. Essa foi a primeira frase que passou na cabeça de minha mãe quando ela leu, no jornal Correio do Povo, no último sábado, uma nota sobre o falecimento do músico, ator, compositor e humorista Nico Nicolaiewsky.

Que grande homem foi Nico!

Mas ainda falando sobre minha mãe… Ignez tinha um sonho, o de assistir ao espetáculo ‘Tangos e Tragédias’. A apresentação completaria três décadas nesse ano e, apesar de minha mãe ter morado por dez anos na Capital, o anseio apenas não se concretizou naquele tempo por conta de dificuldades financeiras. Na época, tudo parecia mais caro em comparação aos dias de hoje. Ainda mais para uma jovem que deixou a família na tranquilidade de uma pequena cidade do interior para estudar, trabalhar e tentar mudar de vida em meio aos paredões de Porto Alegre.

O tempo passou. Hoje, dona Ignez me visita com frequência. Na verdade, ela nem precisava ter uma filha morando no Menino Deus para voltar às ruas da cidade onde construiu carreira e ganhou independência. Antes mesmo, bastava meu pai marcar uma reunião em algum prédio qualquer do Centro Histórico para minha mãe conseguir uma folga no emprego e ser a primeira a entrar no carro. A desculpa sempre era (e até hoje é) a mesma: tenho algumas coisinhas pra comprar lá, que não encontro aqui!

Nenhuma dessas andanças dava a sorte de coincidir com alguma temporada de “Tangos e Tragédias”, que, desde 1987, ocorre entre os meses de janeiro e fevereiro de cada ano. Na segunda semana de janeiro, a sorte bateu na porta de dona Ignez. Era sábado e toda a família estava de passagem pela Capital. Que ótima oportunidade para todos embarcarem no sonho da mãe e finalmente a levarem ao Teatro São Pedro. O plano era esse. Era.

Meu pai se atrasou, eu e minha irmã preferimos percorrer as ruas da Cidade Baixa e minha mãe, tadinha, a ela restou um “Tá bom, vamos deixar para o próximo verão.”

Estou de férias na casa dos meus pais, em Ibirubá. Sábado, logo quando acordei, minha mãe já estava me esperando com o jornal em mãos. “Mariana, desce aqui e dá uma olhada na capa do Correio do Povo. Ali tu vai ter uma história para o teu blog. A história de que eu nunca mais vou ver Nico Nicolaiewsky”.

Nico morreu na manhã de sexta-feira, aos 56 anos, no Hospital Moinhos de Ventos, na Capital. Ele estava internado desde o dia 20 de janeiro para tratar de uma leucemia mieloide aguda.

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