Existe classificação comportamental para um empreendedor de sucesso?

Se você se considera uma pessoa insegura, impulsiva, adora correr riscos e é um workaholic de carteirinha, não se preocupe, pois esses atributos podem ser extremamente favoráveis caso você decida se tornar um empreendedor. A Estarte.Me conversou com a psicóloga Vera Susana Lassance Moreira, para entender as características de um perfil empreendedor, e como a tecnologia pode ajudar ou atrapalhar o trabalho de cada profissional da área. Enquanto as startups entram no mercado de trabalho com alto conhecimento tecnológico, os empreendedores com mais experiência no mercado ainda preferem controlar tudo com a ponta da caneta.

Vera Moreira é graduada em Psicologia com pós-graduação em Psicologia Organizacional. Tem mestrado em Psicologia Social e é doutora em Administração pela UFRGS. Atualmente, é professora da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e diretora da Xave Comportamento Organizacional, com atuação em empresas por todo o país. Vera está inserida no mercado de trabalho há 33 anos, e há oito avalia empreendedores para investimentos. Ela conta que criou uma metodologia onde aplica, além de outros instrumentos, uma entrevista de profundidade para conhecer a história do empreendedor e o que o levou a optar por aquele caminho. Após a avaliação, Vera dá um feedback para a empresa investidora e também, para a empresa que vai receber o investimento. “Muitas vezes, a minha recomendação não é a de não investir, mas a de investir na empresa desde que haja cautela e conhecimento das questões de perfil”, afirma a psicóloga.

De acordo com Vera, a ideia para esse tipo de avaliação surgiu a partir de uma empresa de investimentos, quando um dos sócios percebeu dificuldades em conhecer o perfil de cada empreendedor. Os problemas giravam em torno da falta de honestidade, por exemplo, ou quando as pessoas se mostravam inadequadas à gestão.

Com mais de 200 avaliações feitas durante a sua carreira, Vera identifica com facilidade se uma pessoa tem ou não condições de se tornar um empreendedor de sucesso, e o que falta para que uma empresa acredite em seu potencial e em sua ideia. Em geral, os empreendedores são extremamente realizadores e estão sempre em uma busca constante pelo “provar”, característica que está relacionada a um ponto de raiva no histórico da maioria deles. É uma forma de se sentirem desafiados o tempo todo.

– Eu já tive o caso de um homem que, quando criança, era apaixonado por uma menina de família rica. Porém, o pai da garota não deixava os dois brincarem juntos porque ele era pobre. E ele me contou que jurou pra ele mesmo que seria mais rico que o pai da menina. Então eu perguntei pra ele: “Onde está essa garota hoje?”. E ele me respondeu: “não tenho a menor ideia, mas eu continuo provando pro pai dela que eu sou melhor que ele”, conta a psicóloga. E ela explica que a partir da avaliação do histórico de cada pessoa, é fácil encontrar um motivo remoto para que ela queira sempre mostrar que é boa no que faz.

Perfis essencialmente centralizadores e impulsivos também são fundamentais, além da alta facilidade de correr riscos. “Eles precisam ter uma característica de inovação, e inovação é um processo de risco”, explica Vera. O empreendedor é inseguro e, por conhecer o seu próprio negócio mais do que qualquer outra pessoa, ele tenta ter o controle de todos os lugares e de tudo o que acontece nos ambientes, o que faz com que ele tenha certa dificuldade em alguns relacionamentos profissionais. A agilidade e flexibilidade também se atrelam ao perfil empreendedor, já que este é completamente avesso à rotina. Porém, uma das características mais importantes para que um negócio siga com sucesso, é a dominância. “Ele intimida para afastar as pessoas, mas por outro lado, quem consegue enfrentá-lo, é respeitado o dobro. Mas todo bom empreendedor adora uma briga. E isso é coisa de perfil dominante. Muitos gerentes também são dominantes, mas nem todos os gerentes são empreendedores”, conta a psicóloga, que também comenta que muitas vezes a gestão é confundida com o empreendedorismo. “Apesar de um perfil ser diferente do outro, um bom gestor ajuda, ou até mesmo, melhora certa empresa. É quase um par perfeito”.

O par que acaba não dando certo no empreendedorismo, em alguns casos, é a tecnologia e pessoas com mais experiência, acostumadas com a famosa dupla papel e caneta. Vera, por trabalhar também com startups, acredita que os novos empreendedores são extremamente ligados à tecnologia. Para eles, gerenciar à distância e trabalhar por indicadores é um processo rápido e fácil, que apresenta segurança. Para empreendedores que já trabalham há anos, a tecnologia e outras formas mais viáveis para o controle de gastos que envolvem muito dinheiro, são vistas, em geral, como estranhas. Isso se dá pelo fato de eles já estarem acostumados, desde o início de seu negócio, a administrar com anotações e a confiar em suas formas de controle mais do que aquelas que advêm da tecnologia.

Por fim, Vera conta que a tecnologia costuma ajudar na gestão das empresas, porém, o empreendimento não necessariamente depende disso. Mas mesmo assim, o empreendedor que não vem da área se sente intimidado com os avanços tecnológicos que estão ganhando espaço por aí. Apesar de se sentir mais seguro com o controle feito com a ponta de um lápis, o empreendedor convive com uma ambiguidade: afinal, será que a tecnologia ajuda ou atrapalha?”.

 

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