No restaurante brasileiro de Vancouver

Não escondo a minha paixão por coraçãozinho. Se eu tivesse a escolha, trocaria o filé de frango do buffet do restaurante da firma por coraçãozinho. Trocaria também o pernil assado e o parmegiana por coraçãozinho. Trocaria até o salmão. Se eu pudesse, colocaria coração de frango no cardápio todos os dias. O melhor estrogonofe é o de coraçãozinho. O melhor xis é o de coraçãozinho. A melhor pizza é a de coraçãozinho. Para mim, não é churrasco se não tiver coraçãozinho no aperitivo. Aperitivo é sempre a melhor parte do churrasco — quando lembram do coraçãozinho. Em Porto Alegre, o melhor coraçãozinho é o do Pedrini. Em Ibirubá, o melhor é o coraçãozinho preparado pelo meu pai no disco. Só existe graça em ir para o interior quando o seu Airton faz coraçãozinho.

Tenho histórias até no canto norte da América sobre coraçãozinho. Foi em janeiro de 2011, quando estive em Vancouver para um intercâmbio. Durante as semanas que fiquei por lá, conheci a adorável coreana Jee Young Lee. Eu a chamava de Jane para facilitar.

Aí está... conheçam a Jane antes de mais nada

Conheçam a Jane.

Eis que, certo dia, convido a Jane para ir jantar comigo e com alguns amigos em um restaurante brasileiro, o Samba. O lugar era maravilhoso. Para a alegria de todo e qualquer brasileiro que mora fora de seu país, lá tinha feijão. Tinha também caipirinha, palco com rainha de bateria requebrando o quadril ao batuque de uma escola de samba, carne no espeto e co-ra-ção-zi-nho!

Teve registro também!

Teve registro também!

— Jane, experimenta isso. É a melhor carne do mundo.

Jane coloca três corações de uma só vez na boca e inicia o processo de mastigação balançando a cabeça positivamente.

— Que delícia. O que é?

— Coração de galinha.

— OH, MY GOOOOOOD — espantou-se Jane. E ela nem lembrou que falar (ou gritar) com a boca cheia é falta de educação.

Enquanto Jane fazia sinais para o pessoal na mesa, implorando urgentemente por um guardanapo, eu orava para que ela conseguisse segurar o pavor até que alguém alcançasse a ela um.

Após muitos goles de água, Jane parou, respirou e me explicou o motivo do pânico. Na cultura coreana não existe coraçãozinho. Assim como na nossa, sopa de cachorro seria negada pela sociedade. Pois na Coreia do Sul eles comem sopa de cachorro, assim como no Vietnã comem morcego à caçarolaNo momento, a minha emoção ocupou tanto espaço que nem o meu comando para lembrar do compartilhamento de culturas se atreveu a interromper a conversa.

Durante a Copa, também ouvi muitas histórias protagonizadas por estrangeiros e corações. No sentido coração de frango e no sentido sentimental. Eu mesma, durante um dos jogos do Brasil, distanciei os meus olhos do telão de um boteco assim que percebi três estrangeiros perguntando para uma moça ao lado da mesa deles o que eram aqueles pedaços de carne que ela e as amigas estavam saboreando. Fitei os gringos e a reação que eles teriam com coraçãozinho. Bingo! Como todo bom gringo, detestaram.

Até hoje eu acredito que aquela não tenha passado de uma inteligente desculpa para iniciar uma conversa com as gaúchas da mesa ao lado.

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2 comentários sobre “No restaurante brasileiro de Vancouver

  1. Pingback: Chorei em Vancouver | Mariana Fritsch

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