Um pouco é preguiça, o resto é egoísmo

A independência está ganhando mais espaço nesse universo apelidado de pós-moderno. O amor próprio é o novo pretinho básico e o individualismo transformou os valores da doutrina do nascer-trabalhar-casar-e-ter-filhos. Mães não gostam de ver suas filhas de vinte e tantos anos solteiras, sem namorado. Avós não acreditam em netas de vinte e tantos anos solteiras, sem marido. Netas de vinte e tantos anos sem filho, sem um bisneto a caminho, ainda é aceitável. Mas netas de vinte e tantos anos sem ter ao menos um noivo: coitada, diriam os mais velhos, que anseiam por mais crianças vibrantes esperando o bom velhinho na noite de Natal em família.

Gilles Lipovetsky, em “Metamorfoses da Cultura Liberal – ética, mídia, empresa” (que baita livro!), faz uma reflexão sobre o comportamento do indivíduo pós-moderno em uma sociedade pós-moralista. De acordo com o autor francês, esse é o tipo de sociedade na qual nos encontramos hoje, onde se exalta mais os desejos, o ego, a felicidade, o bem-estar individual, do que o ideal de abnegação. A maioria das pessoas ainda se entrega à vida familiar como deve ser, como nossos pais e avós querem, mas também há homens e mulheres que focam na esfera profissional. Trabalho, competência, instrução e carreira como materiais para o sucesso e realização.

Manter o foco de vida em si não é delito, muito menos narcisismo. É uma nova cultura que estabelece responsabilidades individualistas em nome do conforto financeiro, da satisfação profissional, com considerações futuras, sejam elas viagens ou filhos. Casa, cachorro e família, um conjunto de coisas realmente maravilhosas. Mas a liberdade é um valor indispensável. É a vida antes e depois da autonomia. O “eu quero, eu vou” se transforma em “eu queria, eu iria”. Eu deveria, eu faria, eu poderia, eu conseguiria, eu seria…

Martha Medeiros um dia disse: “o egoísmo do mundo tem crescido, as pessoas andam desinteressadas em manter vínculos”. Grande Martha! Talvez o desinteresse não esteja nos vínculos, mas, sim, no equilíbrio. No difícil equilíbrio entre duas personalidades distintas. Ninguém é igual a ninguém. A convivência entre seres de mundos diferentes é algo árduo, que dá trabalho. A preguiça de adaptação, de intercâmbio social, faz com que homens e mulheres optem por si. Nem que essa opção egoísta dure apenas o tempo necessário para ter tempo. Tempo para aprender novos costumes, estudar um comportamento, conhecer um novo espaço, viajar e permitir receber visita em seu próprio território. Cada indivíduo é um país.

A vida seria mais fácil se pudéssemos casar com nós mesmos. Talvez seja egocentrismo. Nos amamos, amamos o nosso jeito, a maneira como pensamos e amamos a cor de roupa predominante em nosso armário. É perda de tempo ir atrás de alguém que goste das mesmas bandas, que queira o mesmo nome para o filho, que use o mesmo shampoo, que assista ao mesmo programa de televisão às dez da noite, que goste de filmes de suspense e pipoca de caramelo quando chove, que não vive sem Chico Buarque nas manhãs de domingo, que sonhe os mesmos sonhos e que queira voar para o mesmo lugar.

Se pudéssemos, namoraríamos a imagem projetada no espelho.

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2 comentários sobre “Um pouco é preguiça, o resto é egoísmo

  1. O materialismo venceu o racionalismo; Comte e Marx venceram Kant; a economia política e estatística , a psicologia e a sociologia, todas irracionais e empíricas, substituíram a gestão cognitiva, as ciências jurídicas racionais e o saber empreendedor e produtor; a criação empírica programada submeteu o criador nas redomas de laboratórios, universidades, campos de pesquisas e tolheu seu salvo conduto de levar por si mesmo a cognição criativa e gestora de seus feitos sendo depois de prontos e acabados incorporados ao empirismo como gestor e administrador; o ente assassinou o ser; a experiência bloqueou a imaginação e a argumentação; Hegel nocauteou Sócrates e deu a vitória definitiva aos sofistas e definitivamente foi construida a divina sociedade positiva de Auguste Comte, o estágio superior da evolução humana fundamentando-se nos fenômenos da experiência sem imaginar, argumentar e abstrair (só da experiência feito), de ética subjetiva pessoal e grupal; a qual submeteu a metafísica para servir-lhe como de estágio inferior evolutivo da razão.
    Conseguimos libertar-nos do sofrimento da razão metafísica e escraviza-la disponibilizando suas criações ao nosso mundo empírico evoluído. De escravos da razão a seus senhores e domadores.
    Vencemos Deus impondo-nos sobre o espírito de nossas vidas e deixando apenas as criaturas racionais enclausuradas fora de nosso mundo positivo como servos em suas criações e produções em nosso benefício como senhores do mundo, programados apenas na memória RAM sem o atraso do apriorismo metafísico.

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  2. O materialismo venceu o racionalismo; Comte e Marx venceram Kant; a economia política e estatística , a psicologia e a sociologia, todas irracionais e empíricas, substituíram a gestão cognitiva, as ciências jurídicas racionais e o saber empreendedor e produtor; a criação empírica programada submeteu o criador nas redomas de laboratórios, universidades, campos de pesquisas e tolheu seu direito de levar por si mesmo a cognição criativa e gestora de seus feitos sendo depois de prontos e acabados incorporados ao empirismo como gestor e administrador; o ente assassinou o ser; a experiência bloqueou a imaginação e a argumentação; Hegel nocauteou Sócrates e deu a vitória definitiva aos sofistas e definitivamente foi construida a divina sociedade positiva de Auguste Comte, o estágio superior da evolução humana fundamentando-se nos fenômenos da experiência sem imaginar, argumentar e abstrair (só da experiência feito), de ética subjetiva pessoal e grupal; a qual submeteu a metafísica para servir-lhe como de estágio inferior evolutivo da razão.
    Conseguimos libertar-nos do sofrimento da razão metafísica e escraviza-la disponibilizando suas criações ao nosso mundo empírico evoluído. De escravos da razão a seus senhores e domadores. Vencemos Deus abortando o espírito de nossas vidas e deixando apenas as criaturas racionais enclausuradas fora de nosso mundo positivo como servos em suas criações e produções em nosso benefício como senhores do mundo programados apenas na memória RAM sem o atraso do apriorismo metafísico.

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