Carinhoso, o cão

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Minha irmã tinha um cachorro que se chamava Carinhoso. O Carinhoso era um vira-lata. É interessante a história do Carinhoso.

Não recordo exatamente a data em que o cachorro começou a fazer parte da família. Foi lá por 2008, se minha memória não falha. Minha irmã sempre foi apegada a animais de estimação, mesmo sem nunca ter tido um. Eis que apareceu o Carinhoso. Sem rumo, sem banho, sem dono e com fome. Um carinho na cabeça, um pedaço de carne, e pronto… Carinhoso nunca mais ousou sair da frente da nossa casa.

Eu não gostava do Carinhoso. Nem eu, nem meu pai. Meu pai por não simpatizar com animais de estimação no convívio familiar. Eu, por me sentir trocada, rejeitada, excluída. Todas as atenções de minha irmã e da minha mãe se voltavam apenas para o bicho. Só meu pai ficava do meu lado. As regras eram claras: Carinhoso nunca, em hipótese alguma, iria atravessar a linha que separava o pátio da parte interior da casa. Certo dia, encontrei o cão dormindo na minha cama. Em outro dia, ele já estava assistindo à TV em uma daquelas poltronas de papai, que, por sinal, pertencia ao meu pai, que não se engraçava com o Carinhoso de jeito algum. Em pouco tempo, Carinhoso ganhou uma casa. O animal foi morar, com direito a cobertor e brinquedos, na minha antiga e cor de rosa casinha de bonecas.

Foi o fim.

Minha mãe preparava até uma espécie de marmita para o Carinhoso. Ela comprava carne barata no mercado, cozinhava, desfiava (ELA DESFIAVA A CARNE!), misturava com arroz e congelava dentro de saquinhos. Ao chegar do trabalho, programava o micro-ondas no descongelamento rápido e, em poucos minutos, o cachorro tinha uma refeição quente e saborosa no prato (ELE TINHA ATÉ UM PRATO DE VIDRO SÓ DELE!).

O Carinhoso não gostava de ração.

Mas a marca registrada do Carinhoso estava no fato de ele nunca querer ficar longe dos donos. O bicho nunca ficava preso, e, o mais desesperador: ele passava entre as grades que cercavam o pátio. O animal gostava de liberdade e de seguir os donos. Ele corria com uma velocidade que invejava o Chiquinho, o cachorro da vizinha que, até hoje, anda em passos lentos, quase parando. Os donos do Carinhoso nunca conseguiram sair de casa sem que o cachorro os perseguissem.

Carinhoso achava que eu também era sua dona.

Em uma cidade com 20 mil habitantes, é normal a escola ficar praticamente ao lado da casa do aluno. Quando o Carinhoso foi ganhando espaço em nosso convívio familiar, com frequência meu pai teve de sair do quentinho de se edredom para me levar até a escola. E não adiantava ir de carro. O Carinhoso já conhecia o caminho. Ele esperava, quieto e calado, em frente ao portão da escola, até que minha aula terminasse.

Uma vez ele entrou na sala de aula.

Em uma outra vez, ele entrou em uma loja com minha mãe. Ela só percebeu que o cachorro tinha a seguido quando o bicho meteu o focinho por de baixo da cortina do provador.

Eu teria chorado de vergonha.

O Carinhoso também já entrou na igreja. Minha mãe só percebeu a presença do animal quando sentou na primeira fila e, antes que pudesse abrir o livreto de cantos, ouviu leves sons de patas pelo corredor da casa de Cristo. Com o rosto corado (É DE SE IMAGINAR!), dona Inês pegou a criatura no colo e, enquanto atravessava o corredor de volta, ouviu alguém gritar: deixa… ele também é filho de Deus…

Poderia cansar os olhos dos leitores com tantas histórias sobre o Carinhoso. Em Ibirubá, muitos conheciam o Carinhoso. Ele se achava meio rei, meio dono de tudo. Ele achava que era o meu dono. Quando eu ia correr, ele se achava o meu segurança. Ia atrás de mim, correndo junto, latindo, agitado, marcando presença e me premiando com o “king kong” do ano.

Que vergonha, Carinhoso!

Certo dia, o Carinhoso desapareceu. Nunca mais se teve notícias do animal. Foi um caos. Minha irmã se desesperou. Justo quando comecei a simpatizar com o bichinho, quando passei a aceitar o fato de que teria um capanga dos mais velozes para me acompanhar onde quer que fosse, ele foi embora. A única lembrança que ficou do carinhoso é uma foto dele com minha irmã em um painel de fotografias na sala de casa.

Eu não gostei do Carinhoso por muito tempo. E queria finalizar esse relato fugindo de clichês. Acontece que o cão será sempre o melhor amigo do homem. Nenhum humano nesse sistema solar esperaria por mim por quatro horas, quieto e calado, em frente a um portão de escola.

O Carinhoso esperou.

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