1,4 mil reais no bolso e uma mochila nas costas

 

10441393_571184243000706_3625954118563025618_n

“Para viajar, basta estar vivo”. Se no dia 1° de abril a frase pareceu loucura para o pai de Thomas Tiemann, certamente ele passou a acreditar na afirmação duas semanas depois, quando viu o filho voltar de uma jornada que antes julgava ser desafiadora demais para um jovem de 21 anos. O relógio marcava sete horas e 30 minutos quando Thomas ouviu a pergunta: “tu vai mesmo fazer isso?”. O jovem sorriu e, com uma mochila nas costas se despediu do pai, que desacreditou na ideia do filho e seguiu para mais um dia de trabalho.

Com apenas R$ 1,4 mil no bolso, Thomas partiu de Blumenau (SC), onde vive com a família, com um único objetivo: chegar até o Deserto do Atacama, no Chile. A opção pelo destino surgiu após uma pesquisa no Google por “belas paisagens”. San Pedro de Atacama lhe pareceu um lugar viável e Thomas sabia que gostaria de lá, mesmo sem ter a certeza de como chegaria e de quanto tempo levaria. “Seria algo novo e desafiador, tudo o que eu estava precisando. E como a única programação era ir, então eu fui”.

O meio de transporte mais em conta para chegar até o Chile e a forma mais arrojada encontrada para viajar por lugares desconhecidos foi a carona. O rapaz revela que sentiu o aperto de se aventurar em um mochilão, literalmente, quando viajou em torno de 700 km atrás do banco de uma Montana, ou quando, por exemplo, tivera que esperar, por um longo período, por algum meio de transporte qualquer.

Salar de Atacama

Em cinco dias, Thomas Tiemann já pisava em solo argentino. A ansiedade que o acompanhava desde que deu o primeiro passo fora de casa, segundo ele, se transformou em felicidade assim que chegou em Resistencia. Porém, apesar da euforia, foi na primeira noite na cidade que o jovem sentiu o primeiro choque da jornada.

— Na tentativa de economizar, quando cheguei à fronteira entre Brasil e Argentina, acabei por trocar pouco dinheiro por pesos argentinos. Quando cheguei em Resistencia, tinha apenas 80 pesos na carteira, em torno de 20 reais. Era um sábado de noite e eu fui informado de que não haveria lugar pAra trocar dinheiro até segunda-feira. Então eu estava ali, no centro de uma cidade, em outro país, com a sensação de que iria dormir na rua.

Thomas não se desesperou. Começou a observar o ambiente que o cercava, sentado em um banco em meio a um calçadão. Pediu para que algumas pessoas o fotografassem, admirou algumas crianças brincando e adultos rindo e bebendo em bares. Para ele, foi nesse momento que o medo deu espaço para que ele sentisse uma sensação de confiança e otimismo. “Pensei: olha onde eu tô! Pude sentir na pele que quando se quer fazer algo, nada te impede, é só querer”, relata.

Minutos depois, um grupo de pessoas com batuques e cantorias, próximo de onde Thomas se encontrava, o convidou para que se juntasse à roda. Após contar o motivo pelo qual ainda não estava hospedado em um hotel, pousada ou até mesmo um hostel, o jovem viu o grupo de desconhecidos se mobilizar para juntar dinheiro. “Foi um dos momentos mais marcantes da viagem”. Thomas não precisou esperar até segunda-feira para ter uma noite tranquila de sono, como também descobriu pessoas maravilhosas e dispostas a ajudar.San Pedro de Atacama

— Chegar ao meu objetivo foi sensacional. Era novo pra mim. Foi um meio mágico de viajar e de conhecer lugares que, talvez, jamais conheceria se me mantivesse acomodado ou precisasse de mais dinheiro. A dificuldade que me acompanhou até lá me fez valorizar cada detalhe, por mais simples que fosse, e a beleza incrível e surpreendente do lugar que, muitas vezes, quem viaja até lá de avião, não dê o devido valor – conta Thomas, orgulhoso pela experiência.

Chegar ao Deserto do Atacama da forma como conseguiu despertou no jovem um gostinho de quero mais. Meses depois, ele se preparava para mais uma aventura. Em 15 de setembro, Thomas e o primo, Eglen, pegaram a primeira carona rumo a Fortaleza, no Ceará. Dessa vez, com apenas 400 reais no bolso e pernoitando em uma barraca, Thomas teve a oportunidade de conhecer um pedaço do Brasil, a cultura nordestina e tudo de mais novo e desafiador que veio de brinde no pacote. Nadou com golfinhos, dormiu na beira de um penhasco ao som de ondas que quebravam na beira do mar e como aconteceu na Argentina, surpreendeu-se com pessoas especiais que encontrou pelo caminho. “Fizemos amigos em João Pessoa que nos recepcionaram como reis. O povo nordestino é muito acolhedor”, conclui o rapaz.

Alto da Sé, Olinda

 Após as duas experiências, Thomas passou a ver as coisas simples da vida com outro olhar, valorização e aprendizagem. Por considerar esse tipo de desafio uma forma de superação de limites e autoconhecimento, ele apoia quem deseja se aventurar em uma viagem sem planejamento específico, um mochilão para onde for, como for e por quanto tempo for.

Anúncios

Um comentário sobre “1,4 mil reais no bolso e uma mochila nas costas

  1. Pingback: Contar histórias | Mariana Fritsch

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s