A crise dos 40 e o primeiro amor

— Sabe como a gente resolve problema de paixonite? Com outra paixonite.

Quanta saudade eu sentirei do professor Jacques. Na última segunda-feira, eu entreguei a última prova da disciplina. Antes de fechar a porta da sala 314, eu disse — com uma dor no coração — “tchau, professor”. “Tchau, querida”, ouvi como resposta. Antes que eu terminasse de descer os lances de escada até o saguão da faculdade, o meu celular já havia vibrado: “Teorias da Comunicação I teve publicação de notas”.

Que bom seria se todos os professores tivessem a mesma agilidade do Jacques.

Não é apenas a simpatia e a agilidade do Jacques que me fizeram escrever sobre ele. Tenho inúmeros motivos: a sua generosidade, sabedoria, uma trajetória que muito inspira quem quer que seja, os vários anos de casamento com a mulher por quem ele é perdidamente apaixonado e o seu netinho. O Jacques fala muito sobre netinho. Não é preciso conhecer o netinho do Jacques para se encantar pelo menino.

Basta ouvir o avô da criança relatar cada peripécia com um baita brilho no olhar.

Talvez seja a quantidade de alunos na turma — seis — ou talvez seja o respeito pelo mestre que cada um desses estudantes deixa visivelmente nítido. Não consegui, no decorrer do semestre, descobrir o que, mas algo fez daquelas aulas cheias de signos, símbolos e sinais verdadeiras conversas de bar. O próprio Jacques dizia isso. “Tu aí atrás, levanta e vem sentar aqui na frente…”.

O professor Jacques nos ensinou os argumentos defendidos por Marshall McLuhan e ainda usou a consonância como gancho para contar um pouco sobre a própria teoria da crise dos 40. Segundo ele, quando somos jovens é “eu quero e eu vou” e, quando adultos, dentro da casa dos 40, é “eu queria e eu iria”. Em um bom clichê, Jacques quis dizer: só devemos nos arrepender do que não fizemos. Mas bons professores não gostam muito de clichês. Enquanto as cinco funções clássicas da Comunicação de Massa eram escritas no quadro, eu já mentalizava como começaria esse texto.

Até ouvir alguém falar em primeiro amor.

O primeiro amor a gente nunca esquece. Com a colaboração da turma, iniciou-se um debate a respeito do assunto. Dos seis alunos, os seis ainda guardam a lembrança de seu primeiro amor. Lembro do professor Jacques sentando na cadeira e perguntando para cada um: tu ainda lembra do teu primeiro amor?

Jacques se apaixonou por uma coleguinha na pré-escola, quando, na Semana Farroupilha, a viu de vestido de prenda.

— A paixão é uma insanidade temporária.

Anúncios

Um comentário sobre “A crise dos 40 e o primeiro amor

  1. I have to thankk you for the efforts you have putt in writing this blog.
    I really hope to see the same high-grade content by
    you in the future as well. In truth, your creative writing abilities hass encouraged me to get mmy very own blog now ;)

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s