Criança quer brinquedo

Uma técnica que aprendi com outros jornalistas, cronistas, escritores e pessoas que, simplesmente, escrevem, é a técnica de ouvir a conversa alheia. Não é fofoca, é oportunidade. Vou explicar. Para escrever é necessário argumento, case, entrevistado, palavras, fatos, convicções e sinônimos — muitos sinônimos. Alguns gênios, bons escritores e líderes de opinião, facilmente conseguem transformar a falta de assunto em belíssimas frases que, unidas, dão sentido a parágrafos que talvez mal tivessem coesão. Mas acredito que, para escrever, é preciso ler muito, aprender muito, ouvir muito.

E ouvir a conversa alheia.

Em uma tarde de sábado, peguei a linha 177. Antes de me acomodar em uma das poltronas vazias ao fundo do ônibus, logo notei uma inquietação nos dois assentos atrás do meu. Fiquei quieta e, claro, segui à risca o que aprendi com outros profissionais que escrevem: prestei atenção. Era uma senhora com uma criança de aparentemente seis ou sete anos. O menino chamou a mulher de avó, suplicou para matar a curiosidade e tentou ansiosamente abrir os diversos pacotes dentro de sacolas com imagens de Papai Noel, árvores de Natal e muita purpurina em tons de verde e vermelho impressas. Não foi difícil concluir que no meio daquela pacotaiada toda havia um presente de Natal para o garoto cheio de angústia. Tudo ficou óbvio quando ele disse: “eu só quero se não for roupa”.

E eu pensava ser a única que, quando criança, detestava ganhar roupa das tias.

A conversa entre avó e neto se desenrolava. Cada palavra articulada pela criança se encaixava perfeitamente nos meus pensamentos de quando vivia a minha primeira década de vida. Porém, antes mesmo de receber o presente, o jovem trabalhou com bons argumentos sobre uma questão incompreensível, simplesmente, por ser tão lógica na perspectiva dele e complexa demais para ser concretizada por gente grande. “Vó, eu quero brinquedo”, “vó, só a minha mãe gosta quando eu ganho roupa”, “vó, o presente é meu, então, quem tem que gostar dele sou eu e não a minha mãe”.

Eu passei a minha infância inteira ganhando roupa e sem ter a audácia daquele menino.

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