O jornal na caixinha errada

Difícil é passar uma camisa, deixar o arroz soltinho, economizar dinheiro, fazer dieta e me irritar. Raramente acordo de mau humor, fecho a cara para o mundo e ignoro o bom dia dos simpáticos. Não lembro do meu último “dia ruim”. Já até me perguntaram se existe alguém nesse mundo que consegue me tirar do sério. Voltei para a minha mesa de trabalho, refleti sobre o assunto e respondi para o colega curioso quem, milagrosamente, conseguia me irritar.

O síndico do meu prédio.

Quem acompanha os meus dramas via Tuíter (aportuguesando a rede social) deve saber sobre a crise de nervos que eu enfrento toda manhã de sábado e domingo quando desço para buscar o jornal na caixinha 603, no saguão do prédio. Conto nos dedos quantas vezes encontrei a minha ZH lá. Roubar o aparelho reservado com a minha toalhinha na academia não me irrita, acordar atrasada, esquecer o guarda-chuva, pegar um temporal daqueles e ainda pisar em uma pedra solta. Isso não me chateia.

Nada me irrita tanto quanto acordar e não ter um jornal para ler enquanto bebo o meu café.

As manhãs de finais de semana são as únicas em sete dias que me permitem abrir um jornal com tempo e sem pressa. Se fosse durante a semana, a zeladora já estaria com a pilha de impressos para distribuí-los em seus devidos lugares antes mesmo das 7h30min da manhã. Mas o responsável por essa tarefa, no sábado e no domingo, é o síndico.

Que deve dormir até perto do meio dia.

Pensei até em começar a frequentar as reuniões de condomínio para fazer a história do jornal virar pauta de discussões. Lembro de um domingo em que cheguei a descer quatro vezes à procura do meu jornal. Na quinta tentativa, já por volta de 17h, eu subi. Bati na porta do síndico, com um sorriso no rosto para disfarçar, e perguntei onde estava a minha edição dominical.

Ele tinha colocado na caixinha do 604.

Disse que tudo bem, menti que não me incomodava em deixar para o final do dia a leitura do Moisés, do Potter e do Sant’Ana. Ele disse que nunca mais se enganaria. Mas esqueceu da promessa por mais duas vezes. Na última, recebi o meu jornal apenas na segunda-feira, quando voltei do trabalho.

Convidei a vizinha do 604 para entrar, tomamos chimarrão e descobrimos juntas que a semana seria de tempo instável no Estado.

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