O soldado quer tomar um chimarrão com Deus

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Ao longo da RS-223, no trajeto que liga Cruz Alta a Ibirubá (ou vice-versa), o termômetro marcava 16ºC. Notava-se as marcas deixadas pelos carros que chegaram e saíram da propriedade sem cercamento no distrito de Passo Bonito. A grama amassada com barro — coisa comum para uma comunidade rural em dia de chuva — foi o guia até a porta da casa de quatro quartos onde também havia uma sala que servia de guarda-retratos. A história começou a ser narrada ali.

O assoalho de madeira estalava e uma chaleira fervia no fogão à lenha quando fui apresentada ao protagonista do conto. Encolhido para que o corpo se acomodasse no sofá estreito, o homem de 93 anos já aguardava pela prosa. Bem aprumado, Guilherme Camera usava uma simpática boina marrom e se agasalhava com pantufas cinzas que foram combinadas com meias brancas por cima da calça de pijama — tudo típico de um look invernoso. Antes que o REC do gravador fosse apertado para que nenhum detalhe da aventura fosse perdido, o ex-pracinha eixou o corpo em posição vertical e deu início à conversa.

“Eu desci ladeiras e me enrosquei em arames. Eles falavam que soldado valente não precisava correr, mas corria, sim. Quando dava um aperto, ele corria…”

Foi quando veio à tona o primeiro riso frouxo daquele homem que representou o Brasil na Segunda Guerra Mundial junto com outros 25.333 soldados. Fraco e com voz rouca, em virtude da gripe que o atingiu nos dias anteriores àquele domingo de maio, continuou a falar sem nem precisar ouvir as primeiras perguntas.

“Tu sabe que eu ainda lembro por onde andei? É de admirar… Tão longe… E eu nem perdi a vida…”

A cada pausa intercalada com as curtas frases era possível ouvir os primeiros cantos de um pássaro no pátio com gramado ainda úmido da chuva que havia acabado de cair. Era um sinal de que as nuvens abriam espaço para os primeiros raios de sol.

O começo

Do lado de cá, um governo centralizador e nacionalista. No outro lado do Atlântico, a aliança entre capitalistas e comunistas disposta a derrotar o inimigo nazista que avançava na velocidade de um projétil. Há evidências de que o conflito resumido a 59.604.600 mortes tenha se desencadeado em 1937, com a ocupação da Manchúria pelo Japão, que buscava matérias primas para sustentar o período industrial no país. Entretanto, a história conta que tudo começou dois anos depois, quando Hitler invadiu a Polônia.

“O brasileiro não tinha que ter ido para lá. Se eles quiseram brigar, que se entendessem sozinhos.”

Embora tenha envolvido a maioria das nações mundiais, o conflito militar, que durou de 1939 a 1945, foi organizado em duas coligações opostas: Aliados (Estados Unidos, Inglaterra, França e União Soviética) e o Eixo (Alemanha, Itália e Japão). Como bom estrategista, Getúlio Vargas negociou vantagens com os americanos — a posição geográfica da terra do pau-brasil era vantajosa para aquele país, que controlaria o Nordeste para proteger o hemisfério. Em tempos de guerra, se não fosse por bem, seria por mal.

No 15º dia do segundo mês de 1942, Buarque foi afundado pelas tropas alemãs que tentavam impedir a navegação comercial brasileira no lado norte da América. Olinda foi o segundo cargueiro brasileiro a ir para o fundo do oceano. Ao todo, 33 navios foram alvos dos alemães que, para o azar da Força Expedicionária Brasileira, eram bons de mira. Mais de mil homens morreram em uma guerra da qual o Brasil ainda não fazia parte.

“Quem batalhou e voltou vivo merece ir direto pro céu. Eu quero chegar lá e tomar um chimarrão com Deus…”

Pés cariocas manifestavam sobre paralelepípedos pelos filhos que deixaram pais e pelos pais que deixaram filhos antes que pudessem conhecer o verdadeiro cenário de batalha. “Protesto veemente do povo do rio contra o eixo!”, dizia O Globo, na capa da edição de 18 de agosto de 1942. Revoltado, o povo — assim como a mídia — era também pessimista: desacreditava na garra dos jovens combatentes e dizia, em alto e bom tom, que mais fácil era uma cobra fumar do que o Brasil declarar guerra ao Eixo. A cobra fumou no último dia daquele mês.

Primeiros relatos

Guilherme servia como militar, havia três anos, na atual Escola de Sargentos do Exército de Cruz Alta, no noroeste do Estado, quando a ele foi dada a opção de arriscar a morte ou viver. Ficaram em solo gaúcho os casados, pais, feridos, doentes e desistentes do exército. Mas o ex-soldado da FEB dizia que abandonar o fardo de milico, com pouco mais de duas décadas de vida, o tornaria um covarde.

“Quem tinha um dente quebrado já não ia. Só gente sã era escalada, até porque, se tu não tem um dedo tu não consegue pelear, né? Mas eu queria ir.”

O brilho no olho estimulado pelas palavras de “luta e defesa pela pátria”, gritadas pelo governo, colocou o gaúcho em um navio que partiu do Rio de Janeiro com destino à Itália. O homem que nunca imaginou participar do maior conflito da história, de repente, se viu cercado pelo Atlântico — coisa que, nas palavras dele, parecia uma lavoura de milho balançando com o vento.

“Foram 15 dias e meio até lá. Só água. A gente também comia pouco porque o navio sacudia muito e a gente ficava mal do estômago.”

Guilherme conta que o arrependimento era, em alguns casos, sucedido de suicídio em alto mar. Mas a tensão desencadeada pelo despreparo dos pracinhas brasileiros, volta e meia dava espaço para o samba que mobilizava os navios acompanhado das coreografias dos mais ousados. O clima de festa ia sendo esquecido conforme as embarcações se aproximavam do Mar Mediterrâneo para adentrarem o território Europeu, onde o frio foi o primeiro inimigo a ser enfrentado.

“A língua italiana era muito fácil. Lá, em um mês, todos já falavam. Eu já tinha o idioma de casa porque minha mãe me ensinou e foi isso que ajudou a me tornar um policial especial lá na Europa.”

Os uniformes verdes com “Brasil” bordado no ombro esquerdo combinavam com os capacetes de mesma cor. De julho de 1944 a maio de 1945, Guilherme acampou em barracas feitas com estacas de pau no meio do mato, surpreendeu-se com a hospitalidade americana, viu parceiros mortos e, quando ouviu as instruções de como usar um fuzil, se deu conta de que homem mataria homem como se estivesse matando bicho.

“Pela primeira vez eu pensei: meu Deus, onde a gente foi se meter…”

Na guerra

Os dez meses foram marcados pelo medo dos soldados despreparados psicologicamente. Guilherme lembra que convites para se unir a grupos que tentariam o suicídio não foram poucos. A justificativa se baseava na impressão de que o caos não acabaria e a morte os alcançaria cedo ou tarde. O ex-pracinha gaúcho considerava o ato covarde, mas entendi a falta de coragem dos companheiros.

“Se o soldado parava para pensar no que tava acontecendo, ele se matava mesmo. Eu nunca faria isso porque só queria voltar e ver a minha mãe. Eu amava ela.”

O tom de voz de Guilherme diminuía na medida que a conversa ia se estendendo. Mas a fraqueza não era o suficiente para tirar a empolgação daquele homem que, com orgulho, contava entusiasmado que, por ser ligeiro, sempre escapava da morte, de um jeito ou de outro. Ele narrou os lugares onde quase perdeu a vida e, em todas as cenas, ressaltava a fé que o acompanhou desde o momento que pisou em solo europeu. A reza era a fuga do pânico, da saudade e da incerteza que o acompanharia por tempo indeterminado.

“Aquilo não era uma brincadeira, mas medo eu não tive”.

A sobrevivência na Itália não era necessária apenas na forma física. O salário que recebiam como “voluntários” da FEB, embora chegasse a valer 10 vezes mais em comparação ao que recebiam no quartel, muitas vezes, não era suficiente. Ele recorda que era comum soldados venderem seus pertences e roubarem os de seus companheiros. Qualquer calça velha já era uma garantia. E qualquer objeto cortante que fizesse um talho silencioso no bolso do vizinho também. Guilherme soube proteger a grana graças ao jeitinho brasileiro que viajou com ele para o além mar.

“Na cueca eu fiz um bolsinho. Costurei com agulha, sabe, para guardar o dinheiro ali. Lá, o soldado aprende a ser esperto, lá, ele não é um bocó.”

Quando perguntei se chegou a adoecer, ele foi rápido em responder que nem dor de cabeça sentiu. Então, mais um riso frouxo se desencadeou daquele homem. E mais pássaros começaram a cantar diante do pôr do sol pós chuva. O gravador já cronometrava mais de setenta minutos de conversa quando Guilherme começou a se encaminhar para as indagações finais, nas quais mencionou novamente a mãe que tanto sofreu pela falta de notícias do filho.

“É muito triste uma guerra. Ainda mais longe, quando a mãe da gente é quem mais sofre.”

A volta

A cena que mais ganhou gás ao ser narrada foi a que ocorreu em sete de maio de 1945. Capacetes foram jogados para cima, embalados pelos gritos de comemoração dos soldados — por sinal, muito bem imitados pela voz rouca do senhor de boina marrom. Era o fim da Segunda Guerra Mundial com vitória Aliada. Uma pequena cruz de ferro, com espaço para receber duas vezes a sigla FEB, foi a única lembrança física dos dez meses de aflição. Guilherme viajou com a missão de batalhar pela Pátria. Quem sabe, matar e morrer, também pela Pátria. Após o retorno ao Brasil, uma singela homenagem aos pracinhas tomaram as ruas do Rio de Janeiro com hora para acabar.

Guilherme voltou para a paz rural, onde repetiu todas essas e outras histórias por anos e vai continuar repetindo até que Deus o convide para um chimarrão.

Segunda Guerra Mundial Guilherme Camera FEB

Duas Placas de Identificação iguais eram penduradas no pescoço dos soldados. Em caso de morte, uma era enviada ao Brasil como comunicado à família.

Agradecimentos:
Cláudia Musa Fay, historiadora e professora da PUCRS, Juan Domingues e família Camera

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13 comentários sobre “O soldado quer tomar um chimarrão com Deus

  1. Pública esse áudio original na íntegra. No youtube se possivel manda o link para meu email leolgpg@gmail.com adoro ouvir os velhos contos dos pracinhas quando morava no parana tinha im vizinho que era pracinha e ele nos contava as suas histórias

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  2. meu amigo Guilherme câmera e uma enciclopédia conheço pessoalmente joguei muito baralho com ele e os filhos dele sergio e neco um abraço a este herói q foi cumprir seu dever de soldado hoje moro em goias mas tenho saudades dos amigos la do passo bonito q deus de muita saúde para todos meus amigos abraço do guto

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  3. Li a matéria e achei muito interessante…Sr. Guilherme Camera merece honras…Parabéns Mariana pela matéria…devemos escutar com carinho as histórias de quem fez a história…Parabéns!

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  4. Parabéns Mariana…sempre com belas reportagens,menina que vi crescer e sempre acompanho sua reportagens…continue..es maravilhosa.Abraço da tia Maria

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  5. Simplesmente, emocionante! chegar a essa idade lembrando de tantos detalhes, de tanto sofrimento, e não se tornar uma pessoa amargurada, pelo contrario, vive intensamente…………………………………………..

    …………

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  6. Emocionante! Consegues transmitir todo este sentimento e a emoção, vividas por ti, nesta tarde de domingo e pelo senhor Guilherme Camera, herói brasileiro. Uma bela narrativa. És dedicada e tens o dom, parabéns Mariana! Parabéns ao Guilherme Camera.

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  7. Parabéns pelo trabalho! Fiquei emocionada ao ler pois meu avô materno o Sr. Arnoldo Kappaun ( in memorian)também, assim como o Sr. Guilherme, defendeu o Brasil na Itália. Passei a minha infância ouvindo estas histórias sobre a Guerra , olhando os pertences e recordações q o vo trouxe.

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  8. Pô é muito emocionante ler o relato do Sr. Guilherme, pessoa muito estimada na comunidade, aliás toda a família Camera é composta de pessoas ordeiras, trabalhadoras e amigas. Eu que nasci e cresci no Passo Bonito tive a honra de conviver alguns anos no convívio com o Sr. Guilherme, pessoa íntegra, amiga e religiosa. Parabéns Sr. Guilherme pela lucidez aos 93 anos. Muita saúde!!!

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  9. Seu Guilherme Camera, amigo de nossa família e com a dele temos laços fortes. Reside na casa que foi de João Camargo. Quantas recordações de minha infância. Passo Bonito, lugar lindo onde cresci. Famílias Lorenzoni, Camargo, Ferraz e tantas outras fazem parte de uma fase tão bonita que deixou muita saudade.

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  10. Aqui no Noroeste de Minas, na minha propriedade rural, a 160 km de Brasilia, onde preservou as tradições gauchas com a vizinhanca, fiquei comovido com o tema e parabenizo a autora pela matéria. Comovido, por dois motivos: primeiro porque conheço o Seu Cameira, que foi colega do meu pai (Felipe Pacheco – não embarcou porque a guerra terminou) no exercito; e, segundo, porque fala do local onde passei a infância. Não divido se não foi na mesma casa onde o Seu Camargo morava, meu avô. Parabéns !!!

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