Chorei em Vancouver

O sol era forte na capital gaúcha naquele 13 de janeiro de 2011. O relógio marcava aproximadamente 14h quando entrei na sala de embarque carregando um casacão fofinho em baixo do braço. O “boa viagem” do meu pai foi completado com “te cuida lá” — palavras já esperadas de quem despacha a filha, pela primeira sozinha, para outro país. Minha irmã, na época com 12 anos, pouco conhecia sobre o lugar onde a irmã mais velha passaria as férias da escola. No entanto, a caçula soube avaliar se era vantajoso comprar em dólar canadense.

“Ó a minha listinha de presentes.”

Um dia de viagem e alguns novos amigos pelo caminho. Não era difícil identificar um estudante de intercâmbio no Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo, durante a primeira conexão. Mochila nas costas, uma pastinha com as passagens, visto e passaporte. Alguns carregavam ainda a autorização para menor que viaja desacompanhado dos pais. Era o meu caso.

E todos carregavam um casacão.

A maioria dos intercambistas que conheci era do Nordeste. Uma menina era do Rio e tinha outra que, embora tenha embarcado comigo em Porto Alegre, só perguntou “para qual cidade tu vai?” quando ocupamos lugares em fileiras paralelas em um boeing Air Canada. Ela desceu em Toronto. A gaúcha — assim como todos aqueles que foram meus novos amigos durante um voo — hoje estão entre os 2.053 conhecidos do Facebook. Iniciamos as despedidas enquanto admirávamos a CN Tower lá do alto.

Eu voltaria a subir mais de 40 mil pés de altura por mais cinco horas até Vancouver.

O almoço estava sendo preparado quando fui recepcionada pela mulher que seria a minha mãe pelos próximos trinta dias. O pátio daquela casa na Ruper Street, acredito eu, nunca tinha sido limpado. Quero dizer, retirada de lixo, escombros e coisas aparentemente velhas que se tornaram — também aparentemente — inúteis. A casa minúscula possuía calefação em todos os cômodos. “Ah, a América do Norte”, pensei. O meu quarto era individual, porém, com duas camas. A mais próxima da janela foi usada como guarda-coisas. A outra, como guarda-lágrimas.

Senti medo pela primeira vez na vida.

Aos 16 anos, a coisa mais assustadora que me aconteceu foi sobreviver aos primeiros dias infiltrada na casa de uma família com olhos puxados onde ninguém falava português. O meu inglês era nível consigo-me-virar. Mas a comunicação dificultava quando os sotaques coreano e brasileiro tentavam se entender. Em pouco tempo, ganhei ainda um irmão com sotaque árabe e outros três também provenientes da Ásia Oriental — como se já não bastasse uma família inteira.

Ao todo, dez pessoas se dividiam em cinco quartos, três banheiros, duas salas e uma cozinha que cheirava a bacon frito em todo café da manhã.

Conseguir contato com o Brasil foi difícil. Qualquer floquinho de neve conseguia impossibilitar o envio de alguma mensagem do tipo “mãe, tô viva!”. O fraco sinal do wi-fi não me permitia acessar qualquer meio digital de comunicação e eu era — e ainda sou — leiga em telefonar via orelhão. Nenhuma das nacionalidades na casa conhecia um lugar, perto dali, que vendesse cartão telefônico. Sem um norte do que fazer, dei sinal de vida três dias depois de ter me despedido da família no saguão do Salgado Filho.

Haja coração, dona Ignez!

Sem ter me acostumado com o fuso de quatro horas a menos em relação à Ibirubá, o meu despertador biológico me tirou da cama antes das seis da manhã de um domingo. As pantufas nem faziam barulho e todo aquele silêncio em casa me dava vontade de continuar chorando. A cidade garoava e um hot chocolate do Starbucks tamanho large foi o primeiro medicamento para controlar a angústia. Subi as escadarias da Joyce-Collingwood Station e entrei em um SkyTrain vazio com destino a qualquer lugar.

Atravessar — e venerar — a fria cidade litorânea com um metrô de trilhas elevadas foi a segunda medicação.

Desci no final da linha e comecei a caminhar até a beira do que eu pensava ser uma lagoa. Ao chegar mais perto, encontrei o Pacífico. Era tão cedo. E mesmo assim, um homem negro que não deveria ter mais de 60 anos também observava a neblina que pairava sobre a água. Eu tentava, de forma infeliz, fazer uma selfie com uma Sansung de 10 megapixels. Ao notar a minha frustração, o senhor de sorriso branco e largo se ofereceu para registrar a minha primeira recordação da cidade mais habitável do mundo.

Welcome to Vancouver!, disse. Ele deve ter notado o meu sotaque não-canadense na hora do thank you sem a língua entre os dentes.

Quis ser malandra e fui pega por seguranças do SkyTrain sem ticket — lá o passe é comprado, mas a confiança é o que vale. Comi muitos cookies quentinhos de chocolate branco do Tim Hortons e muita Pizza Pizza (não repeti palavra, é Pizza Pizza mesmo, e é a melhor que já experimentei na vida). Também comprei muito café forte nas lojas de conveniência legais de filmes americanos. Tive ainda leves fraturas depois de um tombo de Snowboard que comprometeu a minha locomoção por alguns dias.

Não tive coragem de me desafiar no esqui.

Ensinei brigadeiro para os meus irmãos, dei um par de Havaianas para o meu pai e um colar de pedras comprado em Soledade para a minha mãe. Revistas e sites que vendem dicas para o primeiro intercâmbio me ensinaram que levar presentes tipicamente brasileiros para a nova família é legal, embora eu acredite que eles nunca tenham usado. Também aprendi a falar “oi” em coreano e em troca, ensinei a Jee Young Lee a sambar. Eu a chamava de Jane. Juntas, fizemos compras na Robson Street — uma rua com cheiro de perfume importado —, gravamos vídeos enquanto nos equilibrávamos em cima de um ice skate, e eu ainda vi Jane vomitar coraçãozinho de galinha em um churrasco.

Tem churrasco na província de British Columbia.

Fiz amigos para vida real, engordei três quilos, comprei perfume Chanel a preço de colônia, paguei por excesso de bagagem e assisti a um filme na maior tela de cinema do mundo. Também fiquei escondida em baixo de uma escada durante um jogo de paintball por medo de levar bolada (ou seria bolinha?) na testa. E ainda tive tempo pra voltar meio bêbada (ui, que feio!) de festas em residências estudantis com o último SkyTrain da madrugada.

Calma, pai, não vai mais se repetir…

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