O curioso

É engraçado como o ser humano reage a situações inesperadas para as quais nunca pensou em ensaiar uma resposta em frente ao espelho. Faço esse comentário por experiência própria. Dia desses, me encontrei diante de uma indagação um tanto quanto indiscreta, eu diria. Perante àquele momento de por-que-um-ser-que-não-me-conhece-está-me-perguntando-isso-?, nem pensei nas consequências das minhas palavras. Ao curioso, dei uma resposta tão sem pé, nem cabeça, nem vergonha na cara quanto à pergunta que me foi feita. “Tu já se apaixonou?”

“Várias vezes.”

E me apaixonei mesmo, dezenas, centenas, incontáveis, infinitas vezes. Me apaixono todo dia, cada dia por algo diferente. Me apaixono tão rápido quanto me desapaixono — o que pode levar segundos. Desapaixono por enjoar e enjoo porque tudo o que se repete e vira rotina e me inquieta. Me apaixonei por músicas. A cada dia eu escolho uma para ser a minha preferida. Se a canção do dia não me convencer de continuar com aquela batida em meu ouvido e de que aquela letra se sustenta sozinha, de tanto ouvi-la, vou enjoar.

O amor é como a música.

Me apaixonei por amores de verdade e por amores de mentira. Me apaixonei por amores nível “perda de tempo” e por outros que até valeram a experiência, não a pena. É amando que se aprende. Por isso me apaixonei muito por poucos. Amei várias vezes, amava novamente a cada amanhecer e amava mais ao ouvir um eu te amo. Me apaixonei por vários eu te amos, até restarem apenas os eu te amos. Sem complementos, sem graças. Até pensei que, por me apaixonar, todos aqueles amores me compensariam com um final feliz. E não é que compensaram? Porque errando também se aprende.

E eu continuo me apaixonando.

Por coisas. Por páginas, palavras e pela harmonia entre elas, nas prateleiras, em meio a tantos romances, ficções, crônicas e investigações. Me apaixono por gargalhadas, pipocas doces, cafés passados no pano e por lugares aconchegantes com alguns charmes a mais. Me apaixono por aventuras. Por cada “k” de recorde pessoal na corrida. Por conquistas e desafios. Por filmes bons e por salas de cinema vazias. Por olhares, vidas anônimas e vozes baixas. Me apaixono por histórias e acredito que amar o exercício de contá-las é o que está me tornando jornalista.

Escolhi informar porque sempre quis escrever.

Me apaixonei por amigos, inimigos e amigos que hoje são conhecidos. E continuo me apaixonando pelos novos e por aqueles de sempre. E esse tipo de paixão muda com o tempo, conforme o ser humano vai amadurecendo e se transformando em qualquer coisa que não o torne mais um amigo de outro.

É como a música do dia.

O curioso, então, calou-se antes de eu contar sobre todas as coisas pelas quais me apaixonei. Continuamos conversando. Ele, com aquela cara de quem deduziu, equivocadamente, que eu já devo ter unido a minha escova de dente com várias outras. E eu, com aquela cara de satisfação por nunca me contentar em somente associar paixão a alguém.

Amo mais uma mala feita do que já amei um namorado.

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