Capote, o homem que não mentia

Capote Philip Seymour Hoffman Movie

Philip Seymour Hoffman no papel de Truman Capote

“Eu não minto”, dizia Philip Seymour Hoffman no papel do renomado Truman Capote no filme que teve título inspirado no segundo nome do escritor. Com direção de Bennett Miller, Capote (2005) mostra que tal afirmação foi levada a sério pelo homem que a ressaltava pelo menos durante a narrativa de A Sangue Frio (1966). Se no livro o escritor escreve verdades do início ao fim, no filme que retrata os bastidores da apuração sobre o assassinato da família Clutter, um Truman mentiroso quase coloca em risco o sucesso da obra que viria a se tornar um marco da literatura americana.

Truman, que anos antes de publicar o livro já tinha dado a este um título, opta por omitir tal informação de suas duas fontes mais primordiais: Richard Hickock e Perry Smith, os responsáveis pelo crime. Audacioso, Truman consegue detalhar minuciosamente a história — que não havia chocado os Estados Unidos quando foi noticiada em uma nota no The New York Times — graças à confiança que passou aos assassinos. O mesmo “jogo de cintura” foi espertamente trabalhado pelo escritor quando Perry, o qual acreditava que o autor escreveria para mostrar ao mundo o lado humano dos criminosos, descobriu, por meio de um jornal local, como a obra seria intitulada. Para preservar as informações inéditas e também o envolvimento com aquele por quem se apaixonou durante os seis anos de apuração, Truman não precisou de mais do que um argumento fajuto para que Perry não se decepcionasse com ele.

Capote foi produzido com o cuidado para que a essência da personalidade do escritor não fosse perdida. Vencedor do Oscar de Melhor Ator pela interpretação na pele de Truman, Hoffman conseguiu salientar a sensibilidade do autor, que tudo conseguia com certa habilidade de conquista. Corajoso, Truman tinha também boa memória — 94%, de acordo com ele.

Embora narrasse os bastidores de uma das mais sensacionais obras “jornalísticas”, Capote talvez prenda mais a atenção daqueles que ainda não passaram os olhos pelas páginas de A Sangue Frio devido à curiosidade que o filme, em seu decorrer, vai despertando quanto ao seu grand finale. Para aqueles que já sentiram a satisfação de chegar à página 432, o filme pode até ser apenas um capítulo a parte, mas uma continuação que nos torna íntimos da genialidade do homem que mostrou ser possível transformar hard news em literatura.

Após ter se tornado mito, Truman morreu, em 1984, devido a complicações de saúde decorrentes de alcoolismo. Diz o filme que A Sangue Frio foi o único livro que ele conseguiu terminar depois de ter presenciado o enforcamento dos assassinados que, de certa forma, o ajudaram a receber o título de maior escritor da América.

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