O diário de Edgar Gabe

Edgar Gabe, Ibirubá, RS

Entre todas as relíquias encontradas na casa onde viveu uma das famílias mais lendárias de Ibirubá, uma pilha de folhas de caderno com textos escritos a caneta tinteiro chamam mais a atenção do que a variedade de garrafas de vinho vazias datadas de diferentes épocas. As letras nem sempre seguiam logo acima da linha que deveria guiá-las — nada que impedisse a grafia primorosa nos artigos que não costumavam ter leitores. Todos eles eram guardados em um dos seis cômodos daquela residência, mas não sem antes receberem, no canto inferior direito, a assinatura do autor: Edgar Gabe.

Cada texto parecia um fragmento de um diário. Eram observações pessoais e críticas aos fatos sobre a localidade em que residia, Ibirubá. Todas as notícias da região norte do Estado chegavam a ele pelo rádio — uma estação diferente era sintonizada em cada um dos diversos aparelhos que tinha. O neto de pomeranos ligava o rádio pela manhã, antes de qualquer outro afazer, assim que pulava da cama, e somente o desligava quando se recolhida novamente. Mais do que um meio de comunicação, aquela caixa cinza talvez fosse a única companhia que Edgar aceitasse dentro de sua casa.

Um estudo realizado na década de 1990 pelo húngaro Mihaly Csikszentmihalyi, conhecido como o psicólogo da felicidade, sugere que a solidão é fundamental para a criatividade. Para a autora de O Poder dos Quietos, Susan Cain, há uma riqueza criativa que surge da solidão. A americana, que também escreveu Silêncio: O Poder dos Introvertidos em um Mundo que Não Consegue Parar de Falar, defende que todos — pelo próprio bem, como ela ressalta — pratiquem a introversão.

Estes e outros pesquisadores já apresentaram indícios suficientes para defender o isolamento. Charles Darwin, por exemplo, recusava convites para festas e tinha o hábito de realizar longas caminhadas pelo bosque — comportamento que até se assemelhava ao de Edgar.

Escritor Edgar

Com a cabeça levemente inclinada para baixo, os passos lentos do recatado neto de pomeranos percorriam a extensa propriedade conhecida pelos ibirubenses como o “potreiro do Gabe”. A aba do chapéu escondia os olhos envoltos por rugas características de um homem que beirava as nove décadas de vida. Dentro da residência escondida no chamado “coração verde” da cidade, uma pequena mesa de madeira transformava um canto qualquer no refúgio criativo de Edgar.

Uma pilha com exemplares do jornal de língua alemã Brasil-Post e outra com publicações do periódico ibirubense O Alto Jacuí — as duas, lado a lado — já evidenciavam o seu gosto pela informação. A estante de quatro andares na sala não tinha capacidade para abrigar as dezenas de livros — a maioria escritos em alemão.

Leitor, escritor e colecionador de memórias. Antes que o assoalho de madeira da sala estalasse, já se fazia notória a riqueza de histórias acumulada sob pó e nostalgia. Uma fotografia datada de 20 de agosto de 1965 lembra um fato raro na região. “Neve em Ibirubá”, ressaltou o senhor Gabe no verso, sem esquecer sua assinatura, que era salientada em todos os vestígios de papel.

Entre fotos da infância, com as três irmãs e os pais, há documentos históricos que foram usados, por exemplo, para comprovar um século de fundação da Cotribá, antiga Cooperativa General Osório. O pai, Helmuth Gabe, era um dos 87 fundadores da empresa. Chegou a ser gerente e, depois de deixar o cargo, continuou ativo no negócio “até o fim da vida”, como foi contado por Edgar no documentário Da Pomerânia a Ibirubá, de José Carlos Heinemann.

Edgar não sabia dançar

Pausas de um a dois segundos se intercalavam com as frases com sotaque alemão carregado. Sem pressa para falar, Edgar franzia as sobrancelhas e fechava um dos olhos de leve ao tentar recordar detalhadamente fatos de quando era jovem. “O pai queria que eu tocasse violino, mas eu não era muito de música…”, lembrou, rindo. Da mesma forma, contou sobre os passos que arriscou em bailes no extinto Salão Schoroeder: “eu pisava nos dedos das mulheres, não entendia muito de dançar”.

Durante o dia, a mais importante tarefa do guri era para a família. Junto de Hilda, Helma e Paula — a única dos quatro irmãos que ainda vive —, Edgar ajudava no sustento da casa. O trabalho era dividido. Enquanto elas se dedicavam a vender leite e manteiga e a cuidar do gado e dos terneiros, o caçula se responsabilizava pela criação dos porcos. “E de noite a gente ficava bem quieto”, afirmou Edgar, sentado na sombra de uma árvore de sua propriedade, já na casa dos 80 anos.

A mãe da família morreu com três décadas de vida, deixando marido, três meninas e o filho mais novo, na época, com dois anos. A severa educação que Helmuth deu às crianças talvez tenha sido o que mais influenciou o comportamento reservado de Edgar. Proibidos pelo pai de se relacionarem, nenhum dos quatro irmãos casou ou teve filhos. Vizinhos chegavam, no máximo, até a área que dava acesso ao interior da casa. Jamais passavam da porta de entrada.

Os rígidos costumes da família Gabe foram mantidos após a morte do patriarca, tanto que a personalidade de Edgar revelava, visivelmente, traços herdados do pai.

— Antigamente, a gente não passava do portão de entrada que levava para a residência — comenta Gilberto Henrique Born, mais conhecido como Beto.

Amigo fiel de Edgar, Beto foi umas das poucas pessoas — se não a única — que ganhou seus votos de confiança. A parceria se iniciou em meio a plantações de soja no final dos anos 1960 e se manteve até o último dia de Edgar. Quando o retraído senhor Gabe sentiu que a saúde começava a ficar debilitada devido à idade, fez um convite ao amigo. Ele quis construir uma casa ao lado da sua para que Beto, a mulher e os filhos se mudassem para a propriedade.

O asilo que não saiu

Consciente de que o isolamento dos quatro filhos seria um empecilho com o passar dos anos e, principalmente, quando os últimos chegassem, Helmuth tirou do papel a ideia de construir um asilo na propriedade da família. Mas o projeto não chegou a sair do chão. Os tijolos para a obra ainda estão empilhados ao fundo da casa, confundindo-se com a vegetação do mato predominantemente de araucárias que envolta o lar dos Gabe.

Foi o próprio Edgar que cuidou das irmãs. Hilda morreu aos 72 anos, Helma aos 77 e Paula recebeu a atenção do caçula até ele sentir que a deixaria primeiro.

Hoje, a última integrante da família tem 95 anos e, mesmo com a saúde debilitada, recusa medicamentos. De cama há 18 anos, mantém a pressão arterial 120 por 80, conversa tanto em português quanto em alemão e não fica um dia sem sorrir.

— Até o médico ficou impressionado com a saúde dela quando veio visitá-la — contou Beto, que se responsabiliza pelos cuidados da irmã do amigo.

Edgar Gabe morreu em 1º de março de 2014, cerca de um mês após completar 90 anos. A bengala de madeira que o auxiliava na locomoção ainda está no cabideiro ao lado da porta principal. A casa escondida no verde continua conservando sua história.

 

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3 comentários sobre “O diário de Edgar Gabe

  1. Mariana:

    De fato, a família Gabe e o mato do Gabe fazem parte do ideário de uma geração de ibirubenses que foram jovens, pré adolescentes ou adolescentes nos idos dos anos 60′.

    Ou talvez de anteriores e ou sucessores a esse decênio.

    Realmente, os textos do Edgar (conheci, minha mãe se relacionava com as irmã citadas), mereceriam uma edição, mesmo que romanceada!

    Bela reportagem!

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  2. Belíssima postagem, texto irretocável, imagens reveladoras. O artigo me remete ao início dos inesquecíveis anos 59/60, infância que passou mas que guardo na memória recordações inolvidáveis. Cresci brincando ao redor (e no interior) da magnífica mata de araucárias, muitas vezes afugentado, juntamente com meus amigos, devido ao espírito rabugento (mas no fundo amável) do proprietário. Hoje, bombardeados por todos os lados por uma mídia intelectualmente retrógrada e ultrapassada (fora as banalidades que entopem as redes sociais), precisamos de mais matérias iguais a essa. É um alento para a terceira idade e um afago para a alma. Parabéns.
    https://www.facebook.com/profile.php?id=100010686511382
    @dessoy_

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