Corrida é terapia

 

 

a corrida é uma terapia

Estava querendo escrever esse texto há algum tempo. Queria contar que me vi à beira de um abismo aos 19 anos e que ignorei os antidepressivos receitados porque a corrida foi o meu remédio. Queria falar sobre bipolaridade, ansiedade, pânico e angústia, e queria terminar o texto com o melhor conselho que eu sempre vou dar a quem perder a vontade de viver: corra! Mas precisei, depois de dois anos e meio, sentar novamente na sala de espera de um psiquiatra, às 15h de uma quinta-feira, para me culpar por nunca ter falado sobre depressão, corrida e a volta por cima.

Inúmeros estudos já comprovaram a eficácia da corrida no combate à depressão. Em um deles, publicado no American Journal of Preventive Medicine em 2013, pesquisadores canadenses concluíram que até atividades físicas de baixa intensidade têm o poder de afastar sintomas depressivos em pessoas de qualquer idade. O médico fisiologista Turíbio Leite Barros Neto explicou, em entrevista a Drauzio Varella, que isso se deve, principalmente, às endorfinas, neuromediadores ligados à gênese do bem-estar e do prazer.

Não comecei a correr para enfrentar uma depressão que tomou conta de mim nos primeiros meses de 2014. Já era adepta da atividade antes, só que com piques curtos e lentos que não me levavam para mais de dois quilômetros de distância. Foi a forma que encontrei de suprir parte da falta da dança — a minha proteção psicológica por oito anos —, que abandonei quando precisei deixar a minha cidade natal, Ibirubá, para estudar em Porto Alegre. Mas, quando me dei conta de que os poucos minutos correndo em ritmo lento me proporcionavam uma leve sensação de liberdade, quis ir além para descobrir o que mais a atividade poderia fazer por mim.

A Orla do Guaíba e o Parque Marinha do Brasil passaram a ser uma extensão do meu apartamento — pesquisadores americanos já comprovaram, inclusive, que o contato com a natureza pode ser eficaz contra pensamentos negativos. Também passei a estabelecer pequenas metas como “um pouco mais… só até aquela árvore” ou “nessa semana, vou evoluir um quilômetro”. Em pouco tempo, já estava completando os meus primeiros 10 quilômetros e saindo do banho com uma vontade extasiante de mudar o mundo.

É isso que a corrida faz pela gente.

A minha vontade de acordar e começar a viver cada dia antes de o sol nascer parece coisa de louco diante dos olhos de quem prefere dormir durante toda a manhã de domingo. A corrida me mudou. De sobra, ganhei mais energia, disposição, bem-estar e qualidade de vida. Quando passei a abrir o olho sem ser derrubada de volta para a cama com o assustador desejo de que o meu mundo explodisse para não ter de vivê-lo sabia que a corrida havia se tornado a minha terapia. E eu teria de me manter fiel a ela.

Mais de dois anos depois, os mesmos sintomas da primeira depressão me assombraram. Aprendi que querer abraçar o mundo só com dois braços é difícil e que deveria desacelerar, mas só nas demandas da rotina de consigo-fazer-tudo-e-mais-um-pouco. Dessa vez, renasci antes de chegar ao fundo do posso porque sabia o que tinha de fazer. Driblei a fraqueza decorrente da perda de fome com passos lentos e distâncias curtas, mas não deixei de correr. Foi essa ânsia por liberdade que me devolveu saúde, disposição e um rosto corado, mais uma vez.

O meu melhor conselho vai ser sempre esse. Corra!

 

 

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Um comentário sobre “Corrida é terapia

  1. Corrida é muito bom. No momento da corrida estabelecemos pequenas metas como ” quero chegar até aquela árvore” que nem você disse. Correr é o nosso momento de realização de pequenas metas que podem ser alcançados e o único obstáculo é o nosso cansaço físico e mental.

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