“Eu aprendi a ser bulímica na internet”

Crédito: Mariana Fritsch (imagem ilustrativa)

(imagem ilustrativa)

Publicitária recém-formada pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Kailã Isaias encontrou na família a principal força para sair da bulimia, transtorno alimentar que conheceu por meio de Giselle, personagem interpretada pela atriz Pérola Faria em “Páginas da Vida”, da Globo.

— Foi uma das primeiras vezes em que se falou sobre isso no Brasil. Eu pensei que poderia ser uma solução, porque ela era magra, comia o que queria… — disse Kailã, em entrevista à reportagem, em abril de 2016.

O curioso comportamento perambulou na mente da jovem por quase cinco anos, quando, já no Ensino Médio, ela se viu diante de um descontrole incentivado principalmente por blogs. Kailã protagonizou um filme de terror sem expectadores, encontrou o seu final feliz e hoje não tem medo de contar ao mundo a sua história.

Leia a reportagem completa:
Bom dia, borboletas
“Uma parte de você grita por socorro e a outra parte não consegue sair do lugar”

Confira o depoimento:

Eu nunca fui muito gorda, mas sempre me senti mais gorda do que as minhas amigas. Nunca fui magra, até porque o meu biotipo não é esse, mas eu achava que tinha de ser. No último ano do Ensino Médio, com toda a pressão de vestibular, eu comecei a ficar ansiosa e a me sentir sozinha. Eu pensava: “se eu emagrecer, eu não vou me sentir assim”. Então, comecei a vomitar e a comer muito pouco. Eu emagreci quase 10 kg em duas semanas e ainda não estava satisfeita. Me olhava no espelho e me achava muito gorda. Foi nesse momento que a minha mãe percebeu e eu comecei a me tratar, mas sem precisar de psicóloga ainda.

Entrei para a faculdade e pensei que tudo tinha passado. Só que, mesmo parando de vomitar, continuei comendo como uma bulímica e cheguei a 78 kg. Tinha compulsão. E, quando encontrei sites “pró-ana” e “pró-mia”, tive problemas de novo. Foi quando eu comecei a me tratar realmente. Procurei especialistas porque vi que não iria conseguir me curar sozinha. A gente não se cura. É algo que a gente controla. Durante o TCC, mesmo não querendo e não colocando o dedo na garganta, eu vomitava. Estava tão internalizado o comportamento bulímico que, mesmo eu não querendo, ele vinha.

Eu aprendi a ser bulímica na internet. Eles ensinavam a esconder o cheiro do banheiro, o que comer para vomitar mais fácil, quanto tempo demora para o teu corpo começar a assimilar o alimento. Tudo eu aprendi lá. Eu tinha uma lista enorme de coisas que aprendi e de comidas que poderia comer. Quando eu comia o que não podia, eu vomitava. Eu tive sorte de a minha mãe ter percebido e eu não ter chegado a um ponto tão crítico.

Eu não consigo mais acessar aquelas páginas porque eu sei que é um gatilho perigoso. Quando eu começo a ver meninas muito magras, eu já começo a me retrair. Acredito que é uma marca que eu vou levar para o resto da vida. Eu me cuido o tempo inteiro pra não ter recaídas. É um fantasma que tu carrega. A minha família foi muito acolhedora. Acho que eu não conseguiria se não tivesse tido o apoio deles. Se a minha mãe fosse dessas que pensam que é só dar uns tapas que resolve, não teria resolvido nada. Tu precisa de apoio. A minha mãe é o meu principal apoio. Foi ela quem me ajudou a sair dessa.

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2 comentários sobre ““Eu aprendi a ser bulímica na internet”

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