Wine Run: a linda e difícil meia maratona do Vale dos Vinhedos

Wine Run, no Vale dos Vinhedos, em Bento Gonçalves

Foto: Foco Radical

É verdade que tempo importa e que completar longas distâncias com fôlego para o alongamento é tão prazeroso quanto participar dos festivais de massa que costumam anteceder grandes provas. Mas tentei não pensar muito nisso quando me inscrevi para correr os 21 quilômetros da temida e tão cobiçada Wine Run de Bento Gonçalves depois de passar o verão tratando duas lesões.

Crianças, não façam isso em casa.

Haruki Murakami, o meu mais novo maratonista preferido, disse em Do Que Eu Falo Quando Eu Falo De Corrida que “sentir dor é uma realidade inescapável, mas continuar ou não suportando é algo que cabe ao corredor”. De todas as frases de efeito do primeiro livro do escritor sobre o esporte foi esta que escolhi para repetir durante o trajeto da meia maratona, mas que nos primeiros quilômetros saiu da minha mente treinada a focar em mantras motivacionais para dar lugar à concentração em não escorregar nas pedrinhas soltas durante as descidas em estrada de terra. Paralelo a isso, as belíssimas paisagens do Vale dos Vinhedos chegavam como um presente depois de cada ladeira completada (caminhando, na maioria das vezes, até pelos mais experientes corredores). Quando começava a acreditar que de tanto subir chegaria ao céu até o final da prova, vinha mais um trajeto em declive para aliviar o fôlego, mas não as pernas.

Haja mantras numa hora dessas.

A Wine Run, tradicionalmente realizada em maio, oferece aos atletas dois atrativos que contam pontos no mundo da corrida: beleza e desafio. A festa do espumante pós-prova, na arena de chegada (Capela das Almas), com muitas comidinhas e quitutes típicos da Serra (experimentei desde polenta a sagu), é uma experiência a mais.

A prova é traiçoeira. Os primeiros quilômetros são de folia. Desfruta-se do pouco de percurso plano da prova e, logo, as descidas embalam selfies, empolgação, gritos de guerra de grupos de corrida e comemoração. “O tempo parecer ter sido encomendado”, ouvi uma mulher dizendo, referindo-se ao clima ameno e estável que contradisse as previsões de chuva para a manhã daquele sábado. “Não se animem muito”, alertou um senhor que aparentava ter mais de 50 anos e experiência suficiente na corrida para lembrar que o pior estava por vir. E não demorou: começamos a subir no quilômetro 7 e só pudemos descansar depois do posto revezamento, pouco antes do quilômetro 12.

O ensinamento que todo corredor adquiri, cedo ou tarde, sobre começar devagar e não acelerar em ladeiras nunca fez tanto sentido.

Depois da metade da prova, o silêncio entregou a dificuldade e a boniteza dos parreirais, que já eram apreciados com sol. Enquanto oscilávamos no sobe-e-desce infinito e pedíamos saúde para os joelhos em pensamento, ouvia-se respirações ofegantes. Ocasionalmente, recebíamos incentivo de moradores da área rural que saíam para fora de casa para vibrar junto, além do apoio emocional de fotógrafos que fizeram questão de registrar desde os sorrisos do começo da prova até algumas lágrimas na linha de chegada.

Se teve choradeira, não tenho dúvidas que foi mais de felicidade do que de dor.

Em 2018 tem mais, né?

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